quinta-feira, 22 de novembro de 2012

desenho


traço que alinha a memória
sistema em jogo
polimorfo sentimento
(a)parece no vazio
(des)aparece o delírio
escrito a lápis o sorriso
descrito a sangue o silêncio
imagem da mão que fala
desenho da polissemia
salta da folha
o motivo, o real do espaço
poetiza a curva que traço


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

tesouro



macia cor que te guarda
suave idade
olhos para o coração
que se faz pólen
alma para o vento
que se faz flauta
a soar primavera
a esperar o encanto pássaro
a descobrir e se por
na quieta rósea flor
tesouro que espalha e semeia
indizível silêncio
mergulho do olhar extático
no espanto barulho do medo
na alegria suave do amor
- foi só um beijo!


domingo, 4 de novembro de 2012

flores para o horizonte



dois mundos se tocaram
do mar, o céu se engravidou
choveu de emoção
deu à luz
filho interstício do azul, entremeio
uma linha chamada horizonte
marinho segredo
celeste passagem do medo
para o amor
enquanto os barcos da vida iam e vinham
levando a rotina de cargas pesadas
a terra produziu uma oferta
e o perfume vermelho do silêncio
entregou ao vento seu presente


sábado, 13 de outubro de 2012

corpo



feras selvagens têm a forma do silêncio
sentidos em potencial, basta um rio sens
paisagem fundadora de segredos
um olhar e a música toca
um adeus e o tempo chora
é preciso corpo para a compreensão
o sentido experimenta uma forma
sinestésica ilusão
o real é inventado
e sua beleza ambígua
grita caminhos ao insensato

e o silêncio anda profundo
como o abismo e o céu imenso


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

linha do tempo

as cores e conversas se espelham
indizível beleza azul 
invisível laço sereno
o início se confunde
ao esforço de ser feliz

a terra limita o céu
mas suas asas infindas
abraça a tarde ainda
espalha sua luz fiel

e o dia dura meses
até chegar o por do sol
prêmio do horizonte
beijo da noite imensa
linha que se desfaz




sábado, 22 de setembro de 2012

Primavera


à minha janela uma árvore se mostra
arrancaram-lhe esses dias os sapatos
e ela se quedou vazia, ferida, descalça
galhos secos alcançaram o chão
ela não quis sapatos novos
tratou de esperar a chuva
nutrir-se do orvalho
suportar o calor
num momento preciso
um átimo consciente
desejou sair do lugar
(e como se fosse ter juízo 
pela primeira vez
sentiu o coração raiz ensimesmado
sustentando o mundo erosivo
absorvendo a vida longitudinal)
espirituou-se na estação
e inundou a paisagem 
de uma beleza lilás


domingo, 16 de setembro de 2012

identificação

há sentidos perdidos em vão
poderiam seguir no coração
há sentidos carregados consigo
poderiam perder o tempo abrigo
há sentidos (im)postos
(in)conscientes
(in)cursos
no meio deles
as palavras se assujeitam
e o silêncio se intimida
ah, sem ti dos réus pensamentos



segunda-feira, 10 de setembro de 2012

diz(para)

e o caminho se faz sozinho
dou o que mais procuro
é me tirado
projeção do desejo
carinho sufocado
inundado mergulhado
ilusão de sentido
efeito de imanentes
ondas profundas
pés cortados
perco a estrada e o destino
o carinho escorre
encharca de alma
o chão e o vestido




sexta-feira, 31 de agosto de 2012

esquema

com única ação
(e)feito do sem ti
Ah, Mar se (con)funde a-mo
(dis)curso projetado
caminho (o)culto à língua
(im)posta a falha


quinta-feira, 26 de julho de 2012

Buenito




estranha paisagem
turvo mar da saudade
refrata o brilho
não do céu que desejo
mas da imagem que vejo
no mar, o sol brilha
e no céu densa neblina
quando haverá um encontro
horizonte desenho da poesia?






quarta-feira, 25 de julho de 2012








a surpresa à mesa
alegria do dia
o sentido retido
espera o tempo que era
carinho passarinho
voa a palavra, soa
bonito o infinito









sábado, 14 de julho de 2012



novelo da existência
passa do tempo presente
amor tece da vida o fio,
a tinta, a palavra
 (os poetas já anunciaram
pintaram os artistas
esculpiram, escreveram)
da simplicidade
o surreal vazio
andar debaixo de chuva
‘ouvir estrelas’
viver a belle époque
fugir de mim pra me encontrar
“é meia-noite”
ouço o sino tocar
a dor meço no presente
que o passa do lembrar


terça-feira, 1 de maio de 2012

pensa(r)ei



enlaço tua história na palavra
tropeço na matéria
apagada da memória
nesse jogo do sentido
cheio de regras e deslizes
percorro a via incontornável
dispersa, inacessível
do pensamento
saio do meu corpo
posição de entremeio
num universo em expansão




sábado, 11 de fevereiro de 2012




poeira apenas
brigamos por um lugar
a alegria acena em adeus
e o vento sopra
perdemos o mais importante
ex-istência
todos os conceitos, filosofias,
virtudes nas mãos
ninguém para doar
poeira apenas
alguém quer dela se livrar
passa um pano
estamos aqui
daqui a pouco, não

prometo dar as mãos
antes do vento


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012



infância primeira
desequilibrado passo
ergo-me do tombo
meu aprendizado
criança pequena
nessa vida tão grande
nesse mundo perigoso
guardo num baú a memória
(im)pulsante, viva
e a chave joguei fora
que para começar tudo de novo
uma certeza, sou amada
mas não se pode fazer nada
é a curiosidade meu guia
e terei de experimentar a dor
para crescer


















sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Nascer de novo



dores de parto
marcam minhas contrações
grávida de mim mesma
sinto-me às portas de nascer
as palavras preparam a sala
os utensílios
colocam máscara, luvas,
roupa especial
seguram minha mão
cortam meu peito anestesiado
nove meses de gestação
o coração dilatado
esvazia agora
uma nova vida
dou-me à luz
já andando sozinha
em silente aflição
as palavras, condoídas,
me ensinam a cortar o elo
a princípio o verbo
a enxergar o caminho
da nítida compreensão





domingo, 1 de janeiro de 2012

a virada do ano
clica o passado
num estalo de consciência
psicomeçando o eu, o desejo,
o futuro
dei meia-volta em silêncio
sem festa, nem alarde
e já vivo as promessas
que sequer fiz
a chuva rega a alma
flor-de-lis
broto de criança que espera
se fecha no corpo
e tatua nos olhos
a palavra aprendiz